Panorama sobre o estado atual e conservação dos manguezais na África

8 / 2008 at 1:36 pm 8 comments

Introdução

As florestas de entremarés chamadas manguezais e localizadas em áreas tropicais e subtropicais cobrem a maior parte das áreas litorâneas da África e têm tido um papel significativo em termos ecológicos, econômicos e sócio- culturais na vida das comunidades costeiras no continente. Este artigo apresenta um panorama do atual estado de conservação dos manguezais na África incluindo sua cobertura, estado de biodiversidade, importância, ameaças e lacunas nos principais esforços de conservação. As recomendações são feitas para melhor combater as ameaças cada vez maiores, abordar a problemática do uso sustentável e restaurar esses ecossistemas de mangue.

Extensão e distribuição

Os manguezais abrangem mais de 3,2 milhões de hectares no continente africano, aproximadamente 19% da coberta global. Estão distribuídos em três grandes seções litorâneas da África: o litoral ocidental atlântico (1,5 milhões de ha, 49%), o litoral central atlântico (0,4 milhões de ha, 14%) e o litoral oriental índico (1,2 milhões de ha, 37%). Na faixa costeira da África Ocidental, os manguezais se estendem desde a Mauritânia na seção costeira norocidental atlântica até o Senegal no Delta do Saloum, o Baixo Casamance passando por Guiné Bissau, Guiné do Sul, até o Golfo da Guiné ladeando as faixas costeiras da África Ocidental e Central desde a Libéria até Angola. A Nigéria tem os maiores manguezais da África localizados no delta do Níger com mais de 0,8 milhões de ha de grupos de mangues na área que desempenham um papel crucial no sustento da rica vida silvestre da região. Na África Oriental, os manguezais cobrem diversos países como Somália, Quênia, Seychelles, Tanzânia, Madagascar, Moçambique e África do Sul. O clima é predominantemente úmido e tropical, mas varia a mais moderado em direção a Angola e à África do Sul. O clima é predominantemente úmido e tropical, mas varia a mais temperado em direção a Angola. Na África há pouca variação na distribuição fitogeográfica das espécies de mangues. A África Ocidental e a Central têm três famílias que incluem seis espécies: Avicenniaceae (Avicennia germinans – conhecidas como mangues brancos); Combretaceae (Laguncularia racemosa, Conocarpus erectus); e Rhizophoraceae (Rhizophora harrisonii, R. mangle, R. racemosa – geralmente chamadas mangues vermelhos). A R. racemosa é a espécie dominante na região e tem como características varas longas e retas em grupos puros especialmente nos estuários de maré. A R. harrosonii e a R. mangle são árvores pequenas e arbustos respectivamente. Na África Oriental há 10 espécies de mangues, sendo as dominantes a Rhizophora mucronata, a Ceriops tagal e a Avicennia marina (Semesi, 1998) que ocupam um total de 1,1 milhão de ha. (Spalding et al., 1997).

Biodiversidade

Os manguezais africanos são muito diversos tanto em morfologia quanto em flora e fauna. Na África, são encontradas um total de 17 espécies sendo que há oito espécies únicas na África Central e Ocidental enquanto nove espécies são únicas do litoral leste da África. As espécies puras de mangues na África Ociental e Central incluem: Rhizophora racemosa, Rhizophora harrisonii, Rhizophora mangle; Avicennia germinans; Lagunculacia, Conocarpus erectus, a samambaia Acrostichum aureum ; e a palma introduzida: Nypa fructicans (Arecaceae). As espécies puras de mangues no leste da África incluem Avicennia marina, Avicennia officinalis, Bruguiera gymnorrhiza, Ceriops tagal, Heritiera littoralis, Lumnitzera racemosa, Rhizophora mucronata, Sonneratia alba e Xylocarpus granatum. A composição da fauna tanto aquática quanto terrestre também é muito diversa, inclui mamíferos (macacos, antílopes e manatis), moluscos (bivalvos, ostras), crustáceos e peixes além de espécies de répteis e aves, especialmente aves aquáticas.

Usos principais

Os manguezais são muito importantes conforme vários aspectos: biologicamente, por terem um alto nível de biodiversidade de fauna já que mais de 80% dos peixes comercializavéis e outras espécies aquáticas passam a maior parte ou parte de seu ciclo vital nos manguezais; ecologicamente, por desempenharem um papel crucial na fertilização, estabilização, filtração, regulação do microclima e agirem como apoio da cadeia alimentar e como viveiros para muitas espécies de invertebrados e peixes; economicamente, por providenciarem um amplo leque de produtos florestais madeireiros e não madeireiros que sustentam as economias rurais e têm alto potencial ecoturístico.

Ameaças

Apesar dessas características e da importância desse frágil ecossistema, os manguezais africanos têm sido expostos a enormes pressões e ameaças nas últimas décadas sofrendo grandes perdas; por exemplo, acima de 20-30% dos manguezais na África Ocidental e Central têm se perdido nos passados 25 anos (Quadro 1). Esse fato é decorrente de muitos fatores especialmente da urbanização, desenvolvimento infra-estrutural urbano, exploração de canteiras, extração de sal e areia; poluição devida a indústrias, produtos químicos agro- industriais, exploração de petróleo e gás; ausência de legislação apropriada; desmatamento para defumação de peixes (Ajonina e Usongo, 2001; Ajonina et al, 2005) e a proliferação de espécies invasivas além dos efeitos da mudança climática acentuados pelo crescimento populacional. Esses fatores ameaçadores parecem ser regionais e decorrentes de fatores naturais e artificiais nos manguezais dos litorais ocidentais altos da Mauritânia que sofrem também de fatores naturais principalmente da seca e das invasões salinas. Desde o golfo da Guiné até a Libéria e Angola, os manguezais sofrem com a exploração de lenha para a defumação de peixes, de madeira para a construção, exploração de petróleo e gás e de atividades exploratórias ao longo do litoral que também aumentam as ameaças a esses manguezais.

Os manguezais da África Oriental também enfrentam uma ameaça adicional pela aqüicultura de camarões do Sudeste Asiático que agora está chegando à África Ocidental. O principal fator das perdas é o crescimento das granjas camaroneiras que agora atingem a África Ocidental.

As causas subjacentes da degradação dos manguezais na África Oriental estão associadas com a pressão populacional, o escasso controle, a pressão econômica nas áreas rurais e urbanas, o estado de pobreza das comunidades locais e a distribuição desigual dos recursos. Além disso, os fatores relacionados com a mudança climática tais como o aumento do nível do mar e a sedimentação crescente afetaram os manguezais da Quênia, Tanzânia e Moçambique (FAO, 2005). Isso levou à escassez de lenha e de materiais para a construção, à redução da pescaria, e à perda do sustento devida ao aumento da erosão costeira e ao aumento da pobreza (Abuodha e Kairo, 2001). Conforme uma avaliação recente das florestas de mangue no mundo, a região leste da África tem perdido aproximadamente 8% de sua coberta de manguezais nos útlimos 25 anos a um ritmo médio de aproximadamente 3.000 ha ao ano (FAO, 2005).

Conseqüências gerais das ameaças

A taxa atual da degradação dos manguezais ameaça seriamente esse frágil ecossistema e reduz sua resiliência para mitigar os efeitos da mudança climática. Nos últimos anos, os freqüentes impactos das tormentas marítimas, as inundações e os desastres naturais registrados nas áreas costeiras evidenciam a crescente vulnerabilidade em grande parte atribuída à pressão humana. Mesmo que alguns governos da região tenham iniciado várias políticas de conservação da biodiversidade, ainda a conservação dos manguezais é inadequada. Sendo assim, manter o balanço entre as necessidades das comunidades costeiras locais e os potenciais ecológicos dos ecossistemas de manguezais remanescentes quanto à pescaria deveria causar um renovado interesse nacional e internacional tanto ecológico quanto econômico para os manguezais africanos através de esforços concertados.

As conseqüências das taxas atuais da degradação dos manguezais são importantíssimas já que ameaçam seriamente esse frágil ecossistema e reduzem sua resiliência para mitigar os efeitos da mudança climática. Nos últimos anos, os impactos freqüentes das tormentas marítimas, as inundações e os desastres naturais registrados nas áreas costeiras evidenciam o aumento da vulnerabilidade, em grande parte atribuída às pressões humanas.

Esforços de conservação

Diversos atores têm feito muitos esforços a fim de proteger esses manguezais de uma destruição maior: os governos, através da legislação relacionada com os manguezais e a assinatura de convenções internacionais como a Convenção sobre Mudança Climática, a Convenção sobre Biodiversidade, a Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas, a Convenção sobre a Camada de Ozônio e a Convenção Ramsar sobre a Conservação das Áreas Úmidas. Muitos governos elaboraram também vários Planos Nacionais de Ação para a efetiva implementação dessas convenções internacionais com a inclusão dos manguezais nas áreas protegidas sendo que cerca de 18 a 22% estão protegidos na África Central e Ocidental (Quadro 1). A despeito desses esforços ainda não existe uma política adequada, uma provisão legal e institucional para os manguezais. Há uma tendência a definir e colocar os manguezais aos cuidados de muitas instituições com papéis contraditórios. Por exemplo, em Camarões estão sob a responsabilidade de vários ministérios como o Ministério do Florestamento e a Vida Silvestre, o Ministério do Ambiente e a Proteção da Natureza, o Ministério do Turismo, o Ministério da Pescaria e as Indústrias animais. Várias ONGs nacionais e internacionais também contribuíram através de vários projetos e programas para a conservação da biodiversidade e o manejo sustentável dos recursos naturais bem como para a mitigação da pobreza. A organização da sociedade civil African Mangrove Network, que opera em nível nacional através da Mangrove Network em Camarões, a Mangrove Conservation na Nigéria, o Kwetu Center no Quênia, a FACE na Libéria, a AGRETAGE na Guiné e a WAAME no Senegal que por sua vez é sede do Secretariado, também tem um proeminente papel na proteção desses manguezais. Muitas atividades da rede foram apoiadas, em grande medida, pela IUCN NL (Holanda) e SSNC (Suécia) para empreender programas que envolvem desde a regeneração de manguezais e a promoção de oportunidades para a geração de rendimentos até o desenvolvimento de planos de manejo em diferentes países.

Conclusão e possibilidades futuras

Manter um balance entre as necessidades das comunidades costeiras locais e os potencias ecológicos dos ecossistemas remanescentes de manguezais vem causando um renovado interesse ecológico ou econômico em nível nacional e internacional pelos manguezais africanos através de esforços já concertados. Ainda não é suficiente, mas há uma busca contínua de estratégias adequadas para o manejo sustentável de nossos manguezais já degradados ao ponto da quase extinção desse ecossistema raro, frágil e importante do ponto de vista biológico, ecológico e econômico. O papel das organizações da sociedade civil incluindo associações e organizações comunitárias para complementar os esforços governamentais não deveria ser sobre enfatizado. No futuro, deve haver uma participação cada vez maior do setor privado deixando seu papel passivo de hoje. O papel da pesquisa para providenciar as informações necessárias para o manejo não pode ser sobre enfatizado. A pesquisa deve passar da atual natureza descritiva a providenciar maiores informações quantitativas a respeito do estado dos recursos, da dinâmica populacional e da resiliência. É necessária a cooperação em diferentes níveis e, para agir a fim de salvar nossos manguezais de uma destruição maior o momento é agora. Devemos, portanto, nos unir para salvar os manguezais da África.

Por Gordon Ajonina (1), Abdoulaye Diamé (2) e James Kairo (3)

(1) Coordenador Nacional da Cameroon Mangrove Network

BP 54 Mouanko, Província Litoral, Camarões

gnajonina@hotmail.com

(2) Secretário Executivo da AMN, POBox 26352 Dakar-Senegal,

África Ocidental, abdoulayediame@yahoo.com

(3) Mangrove System Information Service

c/o. Kenya Marine and Fisheries Research Institute

gkairo@yahoo.com

Referências-

Abuodha, P.A., Kairo, J.G. 2001 Human-induced stresses on mangrove swamps along the Kenyan coast. Hydrobiologia Vol. 458 pp. 255-265.

Ajonina, G.N. and Usongo, L.2001. Preliminary Quantitative impact assessment of wood extraction on the mangroves of Douala-Edea forest reserve Cameroun. Tropical Biodiversity 7(2)3: 137-149.

Ajonina, G.N., Ayissi, I. and Usongo, L. 2004. Inventory of Coastal Wetlands of Cameroon/Inventaire des Zones Humides Côtieres du Cameroun. Wetlands International Report. 68pp.

Ajonina, P.U., Ajonina, G.N., Jin, E. Mekongo, F., Ayissi, I. and Usongo, L.2005.Gender roles and economics of exploitation, processing and marketing of bivalves and impacts on forest resources in the Douala-Edaa Wildlife Reserve, Cameroon. International Journal of Sustainable Development and World Ecology 12(2005): 161- 172

FAO, 2005 Status and trends in mangrove area extend worldwide. Working paper No. 64. Forest Resource Division. FAO, Rome.

Kairo, J. G., Dahdouh-Guebas, F., Bosire, J. and Koedam, N. (2001). Restoration and management of mangrove systems – a lesson for and from the East African region. South African Journal of Botany, 67: 383-389.

Spalding, M.D., Blasco, F. and Field, C.D., eds. 1997. World Mangrove Atlas. The International Society for Mangrove Ecosystems, Okinawa, Japan. 178 pp.

UNEP (2003). Mangroves of Eastern Africa. UNEP-Regional Seas Programme/UNEP-WCMC.

UNEP (2007). Mangroves of Western and Central Africa. UNEP-Regional Seas Programme/UNEP-WCMC. http://www.unep-wcmc.org/resources/publications/

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O impacto das políticas de Conservação Florestal nas comunidades dependentes da floresta no SE Madagascar. Lições de sustentabilidade das Novas Áreas Protegidas de Madagascar Uganda: o preço de viver perto do Parque Nacional de Monte Elgon

8 Comments Add your own

  • 1. palloma  |  5 / 2009 at 1:05 pm

    isso aqui e uma porcaria naw tem nada sobre as exploraçoes de manguezais…….
    ter tem mais naw tem explicativo…….
    So tem falando que dia tal aconteceu uma coisa tal….
    Eu nao quero isso eu quero uma coisa que explica sobre exploraçoes de manguezais….
    Eu nao vou botar em um trabalho isso que dia tal aconteceu uma coisa tal…………………………
    Isso e uma porcaria………………

    Reply
  • 2. Maria Rosa  |  6 / 2009 at 8:02 pm

    Só pode ter vindo de pessoas ignorantes os comentários acima. Basta olhar o título do texto que se percebe que o tema abordado será estado atual e medidas para manter a resilência desse importante ecossistema que é o manguezal (por sinal, muito bom o texto). SE NÃO SABE DO QUE SE TRATA, NÃO CRITIQUE!!!!

    Viva o conhecimento e aos biólogos que o possuem!!!

    Reply
  • 3. gisele  |  8 / 2009 at 7:16 pm

    pesquisa

    Reply
  • 4. Bia  |  9 / 2010 at 12:41 am

    Adorei tô com a tal de Maria Rosa afinal é só ler o conteudo o grntinha burra viu…

    Reply
  • 5. Bia  |  9 / 2010 at 12:42 am

    Adoguei

    Reply
  • 6. Mauricio  |  10 / 2010 at 5:02 pm

    Adoreiii sou viado adorei

    Reply
  • 7. Paulo  |  2 / 2011 at 7:18 pm

    Eles falão de um estado de conservação muito importante para nós adorei o trabalho que eles fizeram continuem assim !!!!!

    !!!!!!!!!!!!!!!! África !!!!!!!!!!!!!!!!

    Reply
  • 8. Paulo  |  2 / 2011 at 7:19 pm

    KKKKkkkk que isso bia !!!! Olha o respeito

    Reply

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